quarta-feira, junho 22, 2005

Carioca

Finalmente chegou a Carioca. Conseguimos traze-la no sábado passado, dia 18. Foi toda uma odisséia, e continua sendo – acho que continuará por bastante tempo – essa coisa de ter um cavalo (no caso uma égua). Pra entender a emoçao desta chegada, divido a historia em duas partes: 1) Minha historia com cavalos; 2) A historia da Carioca

1) Minha historia com cavalos
Remonto à minha meninice, no sítio de Caçapava... vidinha de campo, ir com a caneca na mao tirar o leite da vaca as 6 da manha. Nao sei se é uma memoria real ou destas que a gente pinta dentro da gente, mas acho que alí andavamos às vezes de charrete. Minha primeira memória (ou sentimento?!) de contato com um cavalo.

Depois vieram os Julhos, passados com toda a familia (entao “éramos 6”....) nas frerinhas de Campos de Jordao. Enquanto escrevo sinto o cheiro da sala de estar, a música “de elevador” que rolava frequentemente no ambiente, o cheiro do chazinho da noite na cozinha: erva-cidreira. De vez em quando ( a gente sempre queria, mas nem sempre podia...) íamos dar uma voltinha a cavalo. Alugávamos uns pangarés bacanas que nos transformavam em zorros, cavalheiro de tesouros, mosqueteiros... lembro muito bem dos meus irmaos, na maioria das vezes mais ariscos que os cavalos, a galope por qualquer estradinha que permitisse. Eu levava comigo um rolo de papel higiênico, pois que entao já era conhecida a alergia que estes animais me propiciavam: umas 3 horas de espirros e coriza garantidos, ou o seu dinheiro de volta! Depois de mais crescidinha deixei de lado o papel higiênico e comecei a conhecer o celestamine, que me ajudou a disfrutar ainda mais os passeos a cavalo!

E logo... teve o episódio Recuerdo de la Magólia – um puro sangue Criollo, adquirido em um leilao. Nao sei quando durou... só sei que eu nunca o pude montar, apenas ví o Dé montar (e saltar) uma vez. “Recuerdo” que era bem bonito. E bem, de vez em quando dava que alguma amiga tinha alguma casa do interior de Sampa, ou uma fazenda... com cavalos. As férias em companhia destas amigas eram realmente muito bacanas. Amigos, natureza, piscina e cavalos – a vida nao podia oferecer algo melhor!

A grande tristeza da minha vida durante uma época é que meu pai nao fosse um fazendeiro rico do interior, e as possibilidades de casar com um era muito remota. Quem diria... o sapo era príncipe!!! Nunca pensei que pudesse vir a ter uma égua, nem uma fazenda. Felizmente minha vida me trouxe a construir uma fazenda com ênfase em equinos!!!


2) A historia da Carioca
A Carioca era a égua (até o passado sábado) do Álvaro, um cara de 24 anos de idade que vive em Sahagun (um pueblo na provincia de León cujo o qual tb passa o caminho de Santiago).

O Álvaro contratou o Pablo pra domar sua égua faz já 2 anos. E o Pablo domou. Deu um pouco de aulas de montaria ao Álvaro também. É um cara bacana, mas meio “piradinho” – muita droga, noite e coisas do tipo.

Depois do processo de doma ficou meio nosso amigo: de vez em quando falávamos por telefone, eles se encontravam em reunioes de cavaleiros e amazonas... um dia nos contou que estava em julgamento por porte de drogas. Quando finalmente o processo terminou, foi condenado a 4 anos de prisao. Pediu se podiamos ficar com sua égua, cuidando. Aceitamos, e a mantivemos conosco com 4 meses quando ele conseguiu, por boa conduta, prisao de regime semi aberto.

Continuamos em contato. Um dia nos comentou que nao sabia se vender a Carioca, porque queria comprar uma moto (Muita gente ve os cavalos como uma moto!!!). Guardei essa informaçao.

Neste ano a vontade de ter um cavalo pra montar foi crescendo e ficando cada vez mais clara. O potro (já tem quase 4 anos, já se poderia dizer cavalo) do Pablo ainda nao está domado e mesmo quando esteja vai ser destes ossos duros de roer!!! Além do mais, o bacana será ir de passeo com Pablo – ele no Ébano e eu... decidi ligar pro Álvaro, porque afinal de contas, a Carioca é boa égua.

No final de muita milonga me disse que tava pensando serio em vender. Ficou de me ligar quando decidisse os finalmentes. Em duas semanas me ligou, colocou o preço e... uma bagatela! Tem especial interesse que Carioca estaja conosco, tanto pelo favor que lhe fizemos, como por conhecer ao Pablo, sabe que a égua estaria super bem cuidada.

Fizemos o acordo e colocamos a data de buscar. Nos ligou desmarcando, alguma coisa aconteceu que tinha que mudar a data. Mudamos. Mas ai nao tinhamos o carro (reboque) de cavalos, faltava a guia (um documento veterinario que permite o transporte deste animal)... e até o último minuto nao tinhamos NADA. Ele também nao conseguiu a parte dele.

Conseguimos o reboque de uma amiga; roubamos a guia da égua do meu cunhado... e fomos. Fomos TOTALMENTE ilegais, se nos parassem ia dar chabú! E mais: fomos margeando uma tormenta de filme de holiwood. O vento ia parando a Van, mechendo o reboque... raios e trovoes... e nem uma gota. O céu negro ao nosso lado esquerdo e do direito horizonte claro. Sahagun ficava no esquerdo!

Chegamos. Eu ria, pensando em tantas dificuldades que tivemos pra chegar até ai. Até parecia que os impedimentos eram sinais, mas ¿como leerlos? (aqui desculpem, nao lembro como fazer a pergunta em Portugues!)

FATO: estavamos resgatando um animal das maos de uma pessoa que nao o cuidava bem; nao o dava atençao... tinha deixado morrer 2 potros (parto normal, sem complicaçoes) por nao atender ao potro e à égua.
FATO: o Álvaro sofre esta separaçao.
PERGUNTA: Será que essa égua é para ser minha???

Quando a colocamos dentro do reboque, digo, NO MESMO INSTANTE!!!, caiu o céu. O diluvio universal chegou a Sahagun. E isso em época de seca do “sertao do nordeste” (este é tema para outro episódio) é quase pressagio...

Veio a Fromista sem nenhuma complicaçao (nao tinha policia no caminho!), se instalou em uma das 8 baias de cavalos – foi a grande estreia do local! O Ébano feito louco, relinchando, dando patadas, galopando... ficou de guarda na porta da baia... (ele estava no pasto).

No dia seguinte fui dar banho na bichona. Amarrei-a no reboque. Mangueira nas patas, na barriga, no pescoço... molha, molha, molha bem. Fui pegar o sabao um momentinho dentro do galpao. TRUMPXCRASH.... sai correndo... lá ia reboque, Carioca, ladeira abaixo. Tivemos sorte. Parou antes da caidinha final. Tudo em ordem, égua e automovel... QUE SUSTO!

Ela tosse; tá com os cascos grandes, precisa serviço de pedicure – o Santi (amigo do Pablo) vem trocar as ferraduras na quarta-feira; acho que com conjuntivite também. Será que veio BEM bichada ou é pouca coisa? Quem sabe vem a veterinária também. Além do más, convém passar revista no estado clínico dela: faz 1 mes e meio que foi cuberta, deve estar prenhada.

Essa é a história. Eu, timidamente, vou ve-la todos os dias. Leo cenoura, pao velho... a dou água. Acaricio... quem sabe hoje coloco a cabeçada e levo ela (tipo cachorrinho) de passeio pela fazenda – que coma cevada verde (pasto). É mais que tudo um processo de aproximaçao, de nos conhecer. Quando esteja ferrada, o Pablo vai começar a montar e ver como anda o processo da doma. E ai entro eu.

Desejo galopar cabelo ao vento... já os contarei. Beijos a todos.

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