quinta-feira, junho 09, 2005

Filhas


(começa a Era da Bacia)

“Mami... (Silencio). Mamiiiii... (Silencio). Maaaaaamiiiiiiii! A Yara tá comendo a comida da Tana!”

Flashback: eu, sentada detrás do sofá na casa da minha pequeñez, comendo manjar dos deuses. Comida de cachorro. (A de passarinho tava boa tb!) Era ainda melhor se a Estrelinha comia junto: um bocado ela, um eu ... (cadela fiel e amorosa que me salvava sempre do espinafre ao molho branco).

Volto à realidade: vou ao quintale vejo a Yara com a boca cheia-cachumba –“Cospe isso Yara, que nao é comida de gente!” E ela cospe: papa de raçao que deliciosamente oferece à Tana - uma mistura de pequinés e boxer que é o mais antigo membro da família. A filha que já veio com o Pablo...

Noutro dia um grito: “Manhêeeeee, a Yara me mordeu!” Vou correndo. Pobrezinha, alí estava a marca dos 4 dentes assassinos da pequena. E aqui se vê o carácter das duas.

Sao dois desafios. A Ayla é doce, amorosa, desafiante (mas com sentido do perigo!), companheira. Dengosa. Fala pelo cotovelo, pelo calcanhar, pelo ombro e até pela boca. Sinto saudade do silêncio (e olha que aqui em Frómista se escuta uma mosca voando no outro lado do pueblo...) Quer consquistar o mundo através do chororô e quando vê que nao funciona vem cheia de abraços, beijos.... “te quiero mucho Mamá!”... – SAPECA!

Do extremo oposto do ring está Yara. A única criatura que consegue dar um chega-pra-lá na Tana. Forte, decidida. Amorosa, carinhosa, desafiante (sem a noçao o perigo). É totalmente independente e costuma querer conquistar o mundo através do tapa. Grunhe. Frente as broncas pode ter duas reaçoes: ou chora como uma Madalena arrependida, como se estivesse ferindo o mais profundo de sua alma, ou te bate, dá a volta e te deixa falando sozinha... Conheci uma familia que tinham as mesmas características: fortes, independentes, senhores de si e extremamente sensíveis... como se chamavam? Ah.... Freitas!

As duas dançam, cantam, batem palmas e pedem bis. A Ayla em sua fase muito imaginativa inventa contos toda hora (haja paciencia!). Te inventa um personagem e na insistência consegue que o assuma, entrando no mundo do faz de conta com ela. A Yara segue a irma, como um cachorrinho, deleitada em participar dos jogos. Obedece, brinca, finge de morta e dá a patinha!

A Yara começa a falar. Tem o ouvido aguçadíssimo, repete tudo no tom exato que escuta, com a cadencia perfeita, sem desafinar. Já canta algumas músicas. Me assusta. E agora é a vez da Ayla seguir a irma, tentando repetir os sons...

Elas sao mesmo 2 figurinhas carimbadas: o convivio com elas me faz admirar suas personalidades (até mesmo nas facetas mais difíceis de lidar como mae). Sem dúvida elas me ensinam muito. Sobre meus limites, minhas reaçoes automáticas, sobre meus calos. Tento nao vomitar minhas limitaçoes nelas (um trabalho que me faz contar até 100 muitas vezes!), e vejo, tendo o Pablo como espelho de uma outra maneira de se relacionar com as duas, que ainda estou muito longe de onde quero chegar.

É dificil ser mae consciente. Coerente. Sensata. Divertida. Atenta. É dificil se doar e deixar-se levar pelos jogos delas quando o que se deseja é estar num outro mundo – um sem relógio, sem ritmo pre-estabelecido por outros. Estranha a sensaçao de estar por um lado atada e por outro desejosa de criar bem minhas filhas: acompanhar e ajuda-las (que às vezes se resume em nao atrapalharlas, como sabiamente me ensinou o Betao!) a se inserirem neste planeta azul... permitir que aflorem, que nao lhe podem antes da hora. É como se eu sentisse saudade de ser independente e de espalhar-me pelo mundo e ao mesmo tempo, ter a certeza que estou exercendo o papel mais importante (talvez seja só do meu mundo, mas acho que do geral tb...)

¿Viajei na maionese?

Um comentário:

Paulo disse...

Nanda, ficou lindo o blog!